É estranho ser sozinha de novo... depois de tanto tempo. A gente esquece o silêncio e vontade de falar. Esquece que agora é sempre a sua vez de dirigir, ou lavar a louça. Hoje almoçando, vi minha amiga, casada há mais de trinta anos, separada a um ou dois. Pelo menos ela teve filhos, pensei.
Depois pensei de novo.... quem sabe, é : ainda bem que não tive filhos. Mal consigo cuidar das gatas. É muito ruim mesmo você chegar tão cansada que não consegue dar comida, ou limpar a caixa de areia... mas mesmo assim ter que fazer: é sua vez de limpar a caixa de areia.
Mas não me pego chorando como nas outras separações. Ao contrário, é só uma opressão no peito. Uma tristeza que dá ruga na cara, daí prefiro não fazer cara de triste. Talvez porque a ficha ainda não caiu, ou talvez porque ainda tenha muitas coisas dele por aqui. A letra dele nos papéis, as roupas no armário... até a louça suja que foi abandonada às pressas. Parece só que ele foi viajar, ou passar o fim de semana fora. Irônicamente são os dias mais frios do ano. Irônicamente, não contei pra ninguém, nenhum amigo, só a minha avó, e mesmo assim sem contar todos os motivos. Os motivos na verdade eram tantos e não era nenhum. São motivos de oito anos atrás que sempre voltam e me fazem teimar em ter esses ideais.
Nunca pensei em casar com um homem rico. Sempre quis um cara que fosse trabalhador. Que trabalhasse, mesmo ganhando pouco... Mas que não ganhasse nada, nunca?? Isso nunca pedi. Tenho certeza... enfim, esse é só um dos motivos. Mas chega de motivos. O que nos motiva é bem mais do que fatos, é também a personalidade, que mudou muito. Dizem que mudamos muito de sete em sete anos. E lá se foram oito.
Eu talvez tenha mudado muito mais do que ele.
E agora, convivendo sozinha com essa minha personalidade tão diferente, nem sei mais se saio daqui, largo o emprego e reencarno em outra vida. Já não sei mesmo quem é essa moça séria e chata, que vive cansada e não sabe mais das coisas. Essa pessoa que não gosta mais de teatro como gostava antes, que não gosta muito de nada .... parece-me mais próximo aquela frase "A vida nada mais é que uma morte lenta".
Parece-me que não tenho mais euforia ou depressão. Que depois dos 35, me colocaram um óculos que vê a vida em tons pastéis... e depois disso, nada mais.
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