" Tinha dormido o voo inteiro, acordou já no Rio de Janeiro, com o piloto anunciando a temperatura e autorizando o pouso para o resto da tripulação. Lembrou que antigamente, quando era menina toda vez que o avião pousava no Santos Dumont, tocava o samba do avião: 'Cristo Redentor, braços abertos sobre a guanabara... esse samba é só porque, Rio eu gosto de você.' Mas não ia a cidade maravilhosa havia 20 anos. A última vez, ainda tinha ouvido a música, era menina e tinha oito anos. Desde sempre quisera voltar, mas nunca, nunca havia tido chance ou oportunidade. Emendara um curso no outro, um trabalho no outro, um namoro do outro. Agora estava ali por um motivo ridiculo, aliás não era um motivo considerável, apenas a vontade de vir. De ver de novo o mar, de ver de novo os cariocas. Começou um namoro virtual havia três meses. O cara, um carioca de Laranjeiras, morava sozinho e insistia desde a primeira vez que ela viesse, passasse um fim de semana. Poxa, era perigoso, ela sabia, mas quantas coisas perigosas tinham na vida, e não seria ali que ela ia morrer.
Se bem que se fosse estuprada ou esfaquiada não seria nada mal... tomava comprimidos para se levantar todo dia, e comprimidos prá dormir - achava que aquela vida realmente merecia um agito qualquer , nem que fosse um estuprozinho...
Ao chegar no aeroporto, viu uma moça e sua vó desembarcando no mesmo avião. Típicas cariocas com seu sotaque puxado e suas roupas quase carnavalescas embora ainda faltasse um mês pro Carnaval. Falavam alto e a moça dizia que a avó deveria andar na praia 'todo dia', porque era isso que todos faziam, moravam em frente à praia de Copacabana, não tinha desculpa cabível para a obesidade da mulher.
Imeditamente ela pensou com as cariocas tinham essa obsessão pelo corpo perfeito, pelo bronzeado perfeito, pela perfeita simpatia. Foi aí que ela percebeu como estava branca e cinza dentro daquele terninho em pleno verão carioca.
Ligou pro cara de Laranjeiras e disse: 'Estou aqui, na esteira dois, aguardando a mala. Como não esta me vendo : .... Ah, outro, como assim... Não, não... no Santos Dumont ! Ah sim, você está no Galeão ! Não eu dou um jeito, tenho o endereço sim !'
Imediatamente desligou o telefone apavorada. Se sentiu como se tivesse dez anos e estivesse perdida no Rio de Janeiro. Sem demora perguntou para a neta e a avó que estavam ao seu lado :
- O Galeão fica longe daqui ?
- Muito ! Fica na Ilha do Governador !
- E o Cosme Velho : É longe : Se eu pegar um taxi ? É caro ?
- Não, o Cosme Velho é perto, não é caro. Melhor ir prá lá. Pega um taxi sim ! - a menina incentivou. Pegou então sua mala preta e totalmente careta diante da mochila customizada da carioca e saiu do aeroporto, meio que livre, meio que deseperada. E então viu a coisa mais linda do mundo. O Rio estava esplendoroso, naquele céu azul de verão. A cidade cantava um ritmo frenético e exalava um cheiro impressionante. Saiu do aeroporto e acenou para o primeiro taxi que viu. Ao perguntar pra onde ela ia, o taxista percebeu logo :
- Vc é de fora, né ... E para onde vamos ?
- Sou de fora sim... mas, acho que vou ficar um tempo aqui. Maravilhosa essa cidade. Tinha esquecido de como era.
- Maravilhosa mesmo... e vamos prá onde ?
- Pro mar, vamos pro mar.
E o motorista seguiu prá Copacabana."