"Se você fosse mesmo digno, seu cretino,
Você não fazia esse circo todo!
Essa palhaçada sem desatino.
Ah se você não fosse tão certino.
Se fosse o homem que sonhei pros meus meninos...
Que comeria minha macarronada.
Ah se você fosse, ia ser maravilha
Mas você foi cilada !
Foi um falastrão,
um insensível
Um daqueles que não me deu valor.
Prometeu, prometeu
mas vacilou, escorregou...
Eu também fui culpada
por cair nessa roubada
depois de tanto na vida rodar...
Acreditei de verdade,
Te fiz minha cara metade,
Te moldava todinho pra mim.
Mas pior que os outros
Você também desistiu
E agora não tem como voltar
Porque impulso também é burrice
e orgulho que faz mesmo acabar.
Só me pergunto porque
Você me deu anel e agiu como artista
me expôs, me pôs na pista
pra depois me esculachar.
Foi mesmo uma situação bizarra,
uma vingança medonha
Parecia querer me marcar
Como quem marca uma jumenta
Como quem arranha um cristal raro
Como que tatua uma pele branca...
Você queria aparecer
E armou o circo, o palco
Chamou a platéia e decorou o texto
Fazendo comigo seu último espetáculo...
Mas eu, como atriz principal
Desconhecia a ignóbel trama
E te amei raramente como se ama
Caindo no drama fatal.
Nenhuma tragédia finda bem, isso é certo
Todos que assistem temem seu final
Porque é grotesco como o destino a constrói...
Tragédia, só é tragédia de fato
Quando no fim morre o herói...
E morreu.
Tudo de digno e profundo.
Todo o amor que eu trouxe ao mundo
No dia que te conheci.
Quando te filmei na minha cama,
Te mostrei meu sonho alado
e te fiz meu namorado...
Se você não fosse esse cretino,
Nunca ia me magoar assim
Pois não sou criança, e quero seriedade
Quero rentidão, quero caráter
quero um amor de verdade."
quinta-feira, 26 de maio de 2011
A LUA
Deitada na areia da praia branca, sob essa lua tão clara que faz agora, eu me pergunto sobre essa consciência plena que atingi neste momento. Que nada trouxe comigo quando vim, nem pais, nem vó, nem irmãs, nem amigos, nem teatro, nem sabia o significado da palavra possuir.
Quando eu vim, o universo era só um todo ao qual eu estava ligada, mas eu ainda não tinha nada a ver com ele, e ainda não tinha estabelecido nenhum vínculo. Agora, deitada aqui, com essa areia meio úmida nas minhas costas, eu alcancei outra vez esse estágio. Um estágio, em que nada me pertence pessoalmente, realmente, mas também, eu não pertenço a ninguém. Ao me libertar de tudo que me tolhia a liberdade, estou livre da mesma forma de quando vim ao mundo, e era um simples bebê chorão e cabeludo. Faço um inventário final de todos os últimos acontecimentos e consigo perceber que só agora estou além de tudo, aquém de tudo.
Não estou mais ligada as pessoas que tenho um laço de parentesco humano e as outras que meu vínculo é puramente espiritual. Na morte desaparecem todos os vínculos de sangue com o corpo restando só a união espiritual em DEUS. E nele sentimos a união interior com tudo o que vive, sentimos nossa percepção com o self, nos relacionando com todo o universo vivo.
Sinto por exemplo essa areia viva sobre mim. Pulsando e gritando junto com as ondas que batem na praia. O vento entra nos meus poros, e cabelos, e unhas e se mistura com as lágrimas quentes que caem dos meus olhos agora fechados.
Quando eu estava vindo no ônibus e senti de novo o desejo de vomitar, eu achei que dessa vez poderia ser sério mesmo. E não quis experimentar de novo aquela dor. Fui com um nó engasgado, rezando para ninguém me perguntar nada ou falar comigo, senão minha voz ia sair muito estranha. Peguei o telefone, só pra me certificar que não tinha nenhuma mensagem, e mesmo segurando muito, uma lágrima teimosa e cafona saltou do meu olho. Não tive força nenhuma pra limpar, o que fez ela escorrer pela cara toda e entupir meus nariz.
Reparei que o homem que táva ali do meu lado, olhou discretamente que eu chorava, ainda bem que ele continuou discreto e nem me perguntou nada.
Não chegou no meu ponto certo, mas eu quis saltar antes pra ver se essas sensações físicas: vontade de vomitar, nó na garganta e nariz todo entupido, PASSAVAM com a caminhada.
Nada passou, claro.
Mas eu continuei andando. Na rua de casa, desviei. Entrei na Sendas e fui pra sessão de bebidas, onde escolhi o vinho pela garrafa mais bonita, não pelo sabor que ele pudesse ter. Lembrei do porre de conhaque vagabundo tomado sete ou seis anos antes, que me fez acordar no dia seguinte como se eu tivesse sido espancada, com vários roxos e um galo na cabeça. Exatamente naquele dia, eu também tinha morrido. Naquele dia escrevi a minha poesia mais bonita, e nunca mais tive uma cópia dela. Naquele dia a roda da fortuna começou a girar e a torre a desmoronar sem piedade. Eu não sabia, mas meu destino já estava traçado.
Eu não quis viver tudo aquilo de novo e por isso vim parar na praia. Tirei a rolha como me ensinou certa vez um argentino e fui bebendo aos golinhos para tomar coragem e estar aqui diante do TODO.
Confesso que tinha a intenção, mas nunca achei que ia conseguir chegar ao final.
Queria, porque estava cansada, porque achei que nada ia melhorar, porque eu nunca venceria esse estigma de perdedora.
Depois de tomar a garrafa toda olhando pro mar e misturando as minhas lágrimas com a salgada maresia, vi como era MESMO IDIOTA aquilo tudo.
Porque agora eu estava única e unida com todo o UNIVERSO. Podia sentir a vibração do mundo todo, o calor das estrelas, os sons que emitem todos os insetos... essa vertigem estranha que vem do mar.
Na hora foi rápido mesmo. Nem me lembro direito quando pus os compimidos na boca. Não senti gosto nenhum, não senti dor nenhuma. Só sinto essa sensação de inteireza. De ver a lua e sentir a lua, como se eu fosse ela. De ver o mar e ser o mar. De virar areia. De não sentir mais dor nenhuma, nem vontade de chorar, nem nó escroto na garganta que mais parece um câncer.
Sinto só essa paz. De nunca ter sentido, de nunca ter tido, nunca ter sido.
ANILIA FRANCISCA
Quando eu vim, o universo era só um todo ao qual eu estava ligada, mas eu ainda não tinha nada a ver com ele, e ainda não tinha estabelecido nenhum vínculo. Agora, deitada aqui, com essa areia meio úmida nas minhas costas, eu alcancei outra vez esse estágio. Um estágio, em que nada me pertence pessoalmente, realmente, mas também, eu não pertenço a ninguém. Ao me libertar de tudo que me tolhia a liberdade, estou livre da mesma forma de quando vim ao mundo, e era um simples bebê chorão e cabeludo. Faço um inventário final de todos os últimos acontecimentos e consigo perceber que só agora estou além de tudo, aquém de tudo.
Não estou mais ligada as pessoas que tenho um laço de parentesco humano e as outras que meu vínculo é puramente espiritual. Na morte desaparecem todos os vínculos de sangue com o corpo restando só a união espiritual em DEUS. E nele sentimos a união interior com tudo o que vive, sentimos nossa percepção com o self, nos relacionando com todo o universo vivo.
Sinto por exemplo essa areia viva sobre mim. Pulsando e gritando junto com as ondas que batem na praia. O vento entra nos meus poros, e cabelos, e unhas e se mistura com as lágrimas quentes que caem dos meus olhos agora fechados.
Quando eu estava vindo no ônibus e senti de novo o desejo de vomitar, eu achei que dessa vez poderia ser sério mesmo. E não quis experimentar de novo aquela dor. Fui com um nó engasgado, rezando para ninguém me perguntar nada ou falar comigo, senão minha voz ia sair muito estranha. Peguei o telefone, só pra me certificar que não tinha nenhuma mensagem, e mesmo segurando muito, uma lágrima teimosa e cafona saltou do meu olho. Não tive força nenhuma pra limpar, o que fez ela escorrer pela cara toda e entupir meus nariz.
Reparei que o homem que táva ali do meu lado, olhou discretamente que eu chorava, ainda bem que ele continuou discreto e nem me perguntou nada.
Não chegou no meu ponto certo, mas eu quis saltar antes pra ver se essas sensações físicas: vontade de vomitar, nó na garganta e nariz todo entupido, PASSAVAM com a caminhada.
Nada passou, claro.
Mas eu continuei andando. Na rua de casa, desviei. Entrei na Sendas e fui pra sessão de bebidas, onde escolhi o vinho pela garrafa mais bonita, não pelo sabor que ele pudesse ter. Lembrei do porre de conhaque vagabundo tomado sete ou seis anos antes, que me fez acordar no dia seguinte como se eu tivesse sido espancada, com vários roxos e um galo na cabeça. Exatamente naquele dia, eu também tinha morrido. Naquele dia escrevi a minha poesia mais bonita, e nunca mais tive uma cópia dela. Naquele dia a roda da fortuna começou a girar e a torre a desmoronar sem piedade. Eu não sabia, mas meu destino já estava traçado.
Eu não quis viver tudo aquilo de novo e por isso vim parar na praia. Tirei a rolha como me ensinou certa vez um argentino e fui bebendo aos golinhos para tomar coragem e estar aqui diante do TODO.
Confesso que tinha a intenção, mas nunca achei que ia conseguir chegar ao final.
Queria, porque estava cansada, porque achei que nada ia melhorar, porque eu nunca venceria esse estigma de perdedora.
Depois de tomar a garrafa toda olhando pro mar e misturando as minhas lágrimas com a salgada maresia, vi como era MESMO IDIOTA aquilo tudo.
Porque agora eu estava única e unida com todo o UNIVERSO. Podia sentir a vibração do mundo todo, o calor das estrelas, os sons que emitem todos os insetos... essa vertigem estranha que vem do mar.
Na hora foi rápido mesmo. Nem me lembro direito quando pus os compimidos na boca. Não senti gosto nenhum, não senti dor nenhuma. Só sinto essa sensação de inteireza. De ver a lua e sentir a lua, como se eu fosse ela. De ver o mar e ser o mar. De virar areia. De não sentir mais dor nenhuma, nem vontade de chorar, nem nó escroto na garganta que mais parece um câncer.
Sinto só essa paz. De nunca ter sentido, de nunca ter tido, nunca ter sido.
ANILIA FRANCISCA
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