
- " Já falamos tudo o que deveriamos dizer, agora me dê licença por favor...
- Só mais uns momentos... quero olhar tudo pela ultima vez...
E lançou um olhar triste pelas caixas com livros e os utensílios da cozinha embrulhados em papel de jornal e espalhados no meio da sala.
- Uma última coisa : posso levar os cds da Cássia Eller ?
- Fica à vontade, são seus.
Ele se abaixou sobre a caixa de madeira e começou a procurar os cds da cantora. Nesse momento ela teve um flash. Um flash bom e amargo em sua cabeça. Lembrou quando ele chegou em casa com aquela caixa de madeira. Eles moravam num apartamento conjugado na Barata Ribeiro, ele era professor num projeto social do governo e ela ainda era estagiária. Naquele tempo eles transavam todos os dias. Bons tempos aqueles. Ele veio com aquela caixa enorme e disse sorrindo : "...Me deram lá no projeto. Os meninos da oficina de marcenaria que fizeram ! Você pode colocar os cds..." Ela sorriu mais ainda, aquele pequeno apartamento tinha a cara dos dois. Coisas que eles ganhavam, ou compravam nas feiras livres e viagens malucas. Aquela caixa de madeira, tão estilosa, era o que ela estava precisando prá guardar os seus cds que viviam amontoados próximo ao aparelho de som. Naquela noite arrumaram juntos os cds na caixa, comeram macarrão e tomaram sorvete. Era verão, e, sem ar condicionado, eles tomavam banho gelado e depois deitavam na cama semi-nus tomando sorvete. Às vezes transavam até ficarem com os corpos extremamente suados, e de novo, entravam no chuveiro gelado. Ela lembrou, fortemente, que, por dois anos, ela não derramou uma só lágrima, e que naquele conjugado pequeno e cafonamente decorado passou os melhores anos de sua vida.
Voltou a realidade com uma lágrima teimosa que cismava em cair do canto do olho esquerdo. Limpou rápido antes que ele notasse que ela se sensibilizava com qualquer coisa que fosse.
Finalmente levantou com uns onze ou doze cds nas mãos e alegou ainda sem graça:
- Não acho o último, aquele que você me deu ... - engasgou - ... no dia dos namorados. Não faz mal, fica aí, de repente se você ouvir, você lembra da nossa história. - ele abaixou os olhos.
- Não vou lembrar nunca! Não quero, não mereço... mereço a dádiva do esquecimento ! Não quero lembrar que te amei tanto, que vivemos tudo isso, e que tivemos um final tão triste... - disse isso em voz baixa e amargamente.
- Tudo bem, tudo bem, não vamos mais discutir. Então, é isso. - ele deu uma pausa.
- É isso. - ela foi rápida.
- Quando eu passei na quinta aqui e vi que você já estava embalando as coisas, me deu um aperto no peito... eu... sinto muito. Você vai embora que dia ?
- Final desse mês.
- Precisa de ajuda ?
Ela fez um silêncio desconcertante.
- Não. - pausa - Não.
- Que foi ?
- Só estava pensando como essa casa é bem maior do que nosso primeiro apartamento... E que... eu tenho que guardar as coisas sozinha agora.
- Precisa de ajuda ? - ele perguntou mais uma vez.
- Não, prefiro fazer sozinha mesmo. Obrigada.
- Então, adeus.
- Adeus.
Eles já estavam perto da porta, e ele despediu-se sem tocá-la. Ela fechou a porta por traz de si arrasada. Estava exausta, estraçalhada por dentro. Achava que nunca ia viver uma coisa tão horrível em toda a sua vida. Mesmo assim não chorou. Sentou-se no sofá olhando pra parede vazia. Deitou-se encolhendo as pernas, abraçando a almofada, sentiu um objeto machucando as costas, tentou retirar com as mãos... era o cd da Cássia Eller. Fitou-o longamente. Levantou-se e colocou no aparelho de cds. E foi assim, desse jeito, ouvindo : 'eu só peço a Deus, um pouco de malandragem' que ela conseguiu finalmente dormir naquela noite.
aniliah
