terça-feira, 31 de março de 2009

Malandragem


- " Já falamos tudo o que deveriamos dizer, agora me dê licença por favor...

- Só mais uns momentos... quero olhar tudo pela ultima vez...

E lançou um olhar triste pelas caixas com livros e os utensílios da cozinha embrulhados em papel de jornal e espalhados no meio da sala.

- Uma última coisa : posso levar os cds da Cássia Eller ?

- Fica à vontade, são seus.

Ele se abaixou sobre a caixa de madeira e começou a procurar os cds da cantora. Nesse momento ela teve um flash. Um flash bom e amargo em sua cabeça. Lembrou quando ele chegou em casa com aquela caixa de madeira. Eles moravam num apartamento conjugado na Barata Ribeiro, ele era professor num projeto social do governo e ela ainda era estagiária. Naquele tempo eles transavam todos os dias. Bons tempos aqueles. Ele veio com aquela caixa enorme e disse sorrindo : "...Me deram lá no projeto. Os meninos da oficina de marcenaria que fizeram ! Você pode colocar os cds..." Ela sorriu mais ainda, aquele pequeno apartamento tinha a cara dos dois. Coisas que eles ganhavam, ou compravam nas feiras livres e viagens malucas. Aquela caixa de madeira, tão estilosa, era o que ela estava precisando prá guardar os seus cds que viviam amontoados próximo ao aparelho de som. Naquela noite arrumaram juntos os cds na caixa, comeram macarrão e tomaram sorvete. Era verão, e, sem ar condicionado, eles tomavam banho gelado e depois deitavam na cama semi-nus tomando sorvete. Às vezes transavam até ficarem com os corpos extremamente suados, e de novo, entravam no chuveiro gelado. Ela lembrou, fortemente, que, por dois anos, ela não derramou uma só lágrima, e que naquele conjugado pequeno e cafonamente decorado passou os melhores anos de sua vida.

Voltou a realidade com uma lágrima teimosa que cismava em cair do canto do olho esquerdo. Limpou rápido antes que ele notasse que ela se sensibilizava com qualquer coisa que fosse.

Finalmente levantou com uns onze ou doze cds nas mãos e alegou ainda sem graça:

- Não acho o último, aquele que você me deu ... - engasgou - ... no dia dos namorados. Não faz mal, fica aí, de repente se você ouvir, você lembra da nossa história. - ele abaixou os olhos.

- Não vou lembrar nunca! Não quero, não mereço... mereço a dádiva do esquecimento ! Não quero lembrar que te amei tanto, que vivemos tudo isso, e que tivemos um final tão triste... - disse isso em voz baixa e amargamente.

- Tudo bem, tudo bem, não vamos mais discutir. Então, é isso. - ele deu uma pausa.

- É isso. - ela foi rápida.

- Quando eu passei na quinta aqui e vi que você já estava embalando as coisas, me deu um aperto no peito... eu... sinto muito. Você vai embora que dia ?

- Final desse mês.

- Precisa de ajuda ?

Ela fez um silêncio desconcertante.

- Não. - pausa - Não.

- Que foi ?

- Só estava pensando como essa casa é bem maior do que nosso primeiro apartamento... E que... eu tenho que guardar as coisas sozinha agora.

- Precisa de ajuda ? - ele perguntou mais uma vez.

- Não, prefiro fazer sozinha mesmo. Obrigada.

- Então, adeus.

- Adeus.

Eles já estavam perto da porta, e ele despediu-se sem tocá-la. Ela fechou a porta por traz de si arrasada. Estava exausta, estraçalhada por dentro. Achava que nunca ia viver uma coisa tão horrível em toda a sua vida. Mesmo assim não chorou. Sentou-se no sofá olhando pra parede vazia. Deitou-se encolhendo as pernas, abraçando a almofada, sentiu um objeto machucando as costas, tentou retirar com as mãos... era o cd da Cássia Eller. Fitou-o longamente. Levantou-se e colocou no aparelho de cds. E foi assim, desse jeito, ouvindo : 'eu só peço a Deus, um pouco de malandragem' que ela conseguiu finalmente dormir naquela noite.




aniliah


sábado, 28 de março de 2009

Não somente para nós
vamos sonhar sonhos bons
Não somente para nós
vamos querer boa comida e boa bebida
Vamos querer para todos
para os amigos dessa vida...
Vamos querer coisas boas para nós
E também para o nosso próximo mais próximo
Vamos querer sim
E dessa maneira seremos
melhores...

aniliah

quinta-feira, 26 de março de 2009

f foto : ANILIAH FRANCISCA
Aventureiro novembro/2008
Intertexto

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
...
"sou um escritor de peças, mostro
o que ví, no mercado dos homens
ví como o homem é negociado, isso
eu mostro, eu, o escritor de peças.
Para poder mostrar o que vejo
consultei os espetáculos de outros povos e de outras épocas
reescrevi algumas peças, com cuidado
examinando a técnica usada e assimilando
aquilo que me podia ser útil.
E também as frases que eram pronunciadas dei a elas uma marca especial.
Para que fossem como as sentenças que se anota para que não sejam esquecidas."


"eu era filho de pessoas que tinham posses
meus pais puseram um colarinho engomado ao redor do meu pescoço
e me educaram para ser servido
e me ensinaram a arte de dar ordens
olhei ao redor de mim,
não gostei das pessoas da minha classe
nem de dar ordens, muito menos de ser servido
e abandonei as pessoas da minha classe
para viver ao lado dos humildes "

Bertolt Brecht, 1898-1956, teatrólogo e poeta alemão

... após ler "Sobre o Óbvio" - do Darcy Ribeiro e me torturar por achar-me um tanto quanto burguesa, tento aqui expurgar minha culpa.

Aniliah :(

quarta-feira, 25 de março de 2009

Maldições

"Você acredita que as coisas estão escritas
ou que você mesmo escreve o seu destino ?"
Todos os seus homens haviam dito prá ela, que nenhum outro a amaria com tanta intensidade, ou tanto, como eles. É verdade, todos a amaram completamente diferente.
Agora sozinha, ela compreendia mais que nunca aquela frase. O medo dos idiotas era que ela os abandonasse. Pior : que ela sentisse remorço, ou incapaz de arrumar outro melhor do que o namorado chantagista do momento.
E foi pensando nisso que ela embarcou no metrô, no carro destinado 'só prás mulheres' e começou a ler a bibliografia indicada do seu curso de pós-graduação.
Estava cheio, mas passando pela estação da Cinelândia ela viu de relance, entre o texto em punho e a bolsa plástica de uma mulher, um ex namorado seu aguardando pra embarcar no vagão lotado ao lado. Ela abaixou a cabeça, e gelou. Achou estranho vê-lo assim de longe. E como estava diferente ! Sorriu lembrando de um beijo dos dois. Um que durou toda a viagem de metrô e algumas estações além. Imaginou que se tivesse embarcado no carro pra homens e mulheres eles se encontrariam, e talvez, quem sabe, trocassem duas ou três palavras. Sorriu de novo lembrando de como amara aquele homem. E hoje, nada. Não sentia nada. Nem mesmo o alívio que havia sentido quando finalmente conseguiu separar-se dele, dizendo : -" Acabou, agora é mesmo de verdade, acabou !"
Naquele tempo ela pensava que ele era o amor da sua vida. Aliás ela pensava isso de todos. Pois é, todos.
Chegou sua estação, guardou o texto na bolsa e pedindo 'dá licença', 'dá licença', conseguiu ser expelida do vagão lotado. Ainda olhando prá traz fez a última lembrança da noite ... que este ex-namorado tinha sido um dos que falou entre lágrimas e insultos : "NENHUM OUTRO VAI TE AMAR COMO EU TE AMEI!"
Último sorriso, irônico dessa vez. Estava atrasada e mal viu o trem partindo rapidamente.
anilia silveira

terça-feira, 24 de março de 2009

as ondas

as ondas, as ondas, as ondas...

se as ondas de desejo percorrem meu corpo
é porque sou um ser contraditório e
assim parodoxal ...
não é um alívio poder ser livre
e abusar dessa liberdade dessa forma profana
e selvagem
se as milhões de dúvidas correm nos anaxiomas cerebrais
me dão insônia e tiram me sono as vezes
não é remorso, ou culpa
é só naturalmente
vontade de saber as respostas
sobre essas ondas que não cessam
nunca cessam...

domingo, 22 de março de 2009

Conto Anti-Erótico

- Você tem que ler meu primeiro conto erótico! - ela ficava excitada toda vez que sugeria isso.

- Claro, eu quero, quero muito. Assim que tivermos um tempo...

Só que as duas nunca tinham. Naquelas curtas férias eram tantos bares pra ir, tantas esquinas pra virar, tantas bocas pra beijar, tanto banho de mar pra se tomar. E fazia um calor de 40 graus no Rio de Janeiro, as chinelas havaianas derretiam no tapete de asfalto que se estendia naqueles bairros próximos. Numa noite, numa fila interminável de banheiro, ela confessou à outra :

- Sabe, depois que depois publiquei meu conto erótico no blogger, muitas coisas aconteceram : recebi a proposta de fazer um curta metragem !

- Um curta :: ! - Excitou-se mais ainda a outra - é vou ter que ler mesmo este conto.

- E não é só isso, veja só o que eu recebi... - disse-lhe entregando o celular.

Era uma mensagem, de uma leitora do blogger. Nessa mensagem a leitora confessava sua excitação ao ler o conto erótico e a repentina paixonite aguda pela autora.

- Coisa louca esse negócio de escrever. As pessoas participam de sua vida, elas se envolvem de uma maneira que você nem imagina. Acham que você é íntima delas, quando você mal as conhece.

- É verdade, escrever é poderoso e te dá um poder extraordinário...

Evidentemente, quando leem o que você escreve . O que não açontece com muitos escritores de hoje, já que o culto à leitura torna-se um hábito cada dia mais raro e seletivo.

Então ambas ficaram ali, discutindo naquela noite de verão, sobre como a literatura mexia com as pessoas e como de certa forma ela mudava as nossas vidas...

Tudo poderia terminar por aí, se um dia mais por persistência que por insistência a outra foi de fato, ler o tal conto. Era bom.

Bom mesmo, lírico, de um lirismo jovem, da nossa geração. E a partir daí, essa outra ficou imaginando se também não podia escrever um conto erótico.

Mas era se expor demais, afinal, a amiga confessara que tal conto tinha sido inspirado numa situação real. Por isso ela estava com medo : ... poxa, para soar verdadeiro de repente, teria que viver algo semelhante. E a coragem : não tinha ! Não tinha coragem pra viver nada assim. E mesmo que tivesse , vá lá - contar isso prá todo mundo... era sinceramente ultrapassar seus limites. Sentia admiração pela coragem da amiga, inveja por não conseguir fazer algo semelhante...

Já estava se conformando, se nunca poder escrever um conto erótico. Mas num dia desses, dessas férias, nesse mesmo verão, fora à praia com a amiga. Com a amiga do conto-erótico.

Era cedo, e pegaram o ônibus pra Ipanema ainda vazio, embora fosse fim de semana. Saltaram próximo ao posto nove, ainda o point da praia. A caminho da praia se depararam com a vitrine de uma galeria de arte, que expunha inúmeros cartões postais franceses.

- Lindos ! Olha aquele da Torre Eifel...

- Fantástico o ângulo !

Estavam ali entretidas naquelas deslumbrantes fotografias, quando uma figura mais deslumbrante ainda abriu a porta da galeria deixando escapar uma lufada de vento frio do ar condicionado que escapava do interior da loja.

- Vocês podem entrar se quiserem... tem mais postais lá dentro...

Ele sim, era simplesmente LIN-DO !

Ambas amigas , entre boquiabertas e paralisadas foram se deixando entrar pelo interior da galeria de arte, embora estivessem de chinelas e com guarda-sol em punho...

E embora o rapaz se esforçasse em mostrar as belas fotografias dos cartões postais importados, nada fazia com que ambas as meninas tirassem os olhos daquele quase latino, quase europeu, quase um modelo, quase um deus grego.

Ele era alto de cabelos compridos e presos num rabo de cavalo, de olhos levemente puxados e uma boca convidativa. Foi inevitável imaginar um conto erótico com ELE.

Os postais não eram caros, mas as reações das amigas estavam lentas e dispersas. Não sabiam se elogiavam com elouquencia os cartões postais que se mostravam, ou se olhavam pro menino tão bonito e educado que atendia-as com uma atenção especial.
Poucos minutos juntos, mas foi descoberto coisas íntimas : ele era ator, ele se vestia muito bem, e sabia nome de vários fotógrafos famosos.

-“ Ah é o namorado ideal” – pensava a autora do conto erótico.

- “ Ah um conto erótico com esse muso...” – a amiga com pensamentos bem mais inescrupulosos.

Enfim, quase sem querer as meninas saíram. Não iam mesmo comprar os postais, mas pegaram o cartão com o nome do homem-perfeito... de fato não lembrariam esse nome mais tarde, mas a cena, a cena sim era inesquecível.

Ao caminharem pra praia foi inevitável o comentário de ambas:

- Nossa que maravilhoso ! Que homem é aquele !!

- Na hora imaginei escrever sobre ele...

- Um conto erótico...- suscitou a outra, mas logo balançou a cabeça - ... impossível ! Nada aconteceu, só se fosse totalmente fictício. O meu conto ao menos tinha uma base real.

- Se você não escrever, eu escrevo... – e rindo prá si mesma imaginou como seria seu primeiro conto anti-erótico.

E finalmente colocaram os pés nas areias quentes de Ipanema.

FIM

quinta-feira, 19 de março de 2009

antes eu tinha muita imaginação, muitas histórias pra contar... eu só não tinha espaço e ninguém para contar as minhas histórias. então passei a contar pras paredes, pra vida, pro chão verde de cimento, pra umidade que crescia em cada mês de marçco nas paredes do meu quarto. depois eu cresci e continuei a procurar gentes para contar as coisas que eu sonhava, ou pensava, ou escrevia, ou lia. de fato eu era uma menina muito falante. ou carente. não sei bem. sei que ainda adolescente, arrumei pessoas que queriam me escutar. acho que foi de tanto insistir. talvez seja de tanto falar coisas à toa. umas que faziam sinceramente sentido, outras, nenhum. mas isso também não faz sentido nenhum. umas pessoas começaram a dizer que eu dizia coisas boas, e bonitas, e eu começcei a registrar isso, em folhas, em papéis. ok , até aí tudo bem, mas ainda achava sem sentido escrever só pra mim, queria dizer pra todo mundo, não era suficiente recitar algumas poesias em festinhas, ou ler crônicas pros amigos da família. bom, então ganhei um computador, e desde o início achei bem interessante a idéia de ter um blogger... já escrevia em meus diários e meu sonho secreto sempre foi um dia morrer e ter toda a minha vida publicada, quiçá até cinematografada, pelos diários malucos que eu tinha... ter um blogger seria tornar minha vida privda pública, seria participar todo mundo das coisas que eu achava bom ou ruim, enfim, talvez fosse uma maneira de aplacar a imaginação. ou solidão. fiz por algum tempo meu primeiro blogger, que desisiti também bem rápido por ser totalmente abandonado, não visitado e esquecido. caiu em ostracismo total : jamais entendi. me achava tão criativa e inteligente, porque as pessoas não entravam todos os dias naquele espaço carinhosamente por mim criado para ler minhas genialidades... eu era incompreendida. não faz mal, Picasso também foi. depois disso me envolvi ainda mais com teatro, e faculdade, e festinhas, e mais teatro, no fim, nos palcos o que me dava mais prazer era ver algo que eu tinha escrito encenado. mais uma maneira de me fazer ouvir. queira que aquelas palavras por mim organizadas, fossem ditas por outras pessoas e ouvidas por outras ainda. de fato foram, e minha imaginação parecia inesgotável ! podia passar noites e noites escrevendo e tinha achado uma maneira de ser ouvida por muitas pessoas ao mesmo tempo : ouvida do palco... que veículo maravilhoso é o teatro. só que crescendo eu também comecei a querer fazer teatro de gente-grande, e aí as coisas se complicaram um pouco. eu tinha que gastar mais que tinha ou que podia, eu tinha que pagar prá que meus textos fossem ditos por esse maravilhoso vício que são as artes cênicas. se fosse apenas "pagar", tudo bem... mas não era bem pagar... era trabalhar bem duro, ter expectativa, ensaiar, investir... era um pagamento que não tinha preço. era uma coisa bem estranha mesmo. só sei que no fim me envolvi muito em algo que queria mais-ou-menos só prá ter pouco de algo que no fundo eu queria muito , queria desde pequena : ser ouvida. claro que depois veio outro blogger, e esse continua a não ser visitado por ninguém, destino que aceito sem culpa, sem remorço e que não doi nem um pouco. falar sozinha, escrever prá mim, já são coisas que não doem mais. antes doía, antes sangrava. hoje eu entendo que a gente não escreve prá ninguém, ou antes, escreve prá gente mesmo. pra expurgar, prá por pra fora. pra entender que mesmo escrevendo páginas e páginas a nossa 'genialidade' é efêmera, e só existe prá gente mesmo. umas pessoas vão gostar, outras achar normal, outras ainda, odiar... mas isso tudo não fará a menor diferença. não vai mudar a minha vida ou me tornar uma tennesse willians de copacabana. nem uma grande escritora. e na verdade, nessa altura da vida, eu sei qaue o maior prazer mesmo não é ser ouvida, é compreender que eu posso falar à vontade, escrever à vontade. e ser feliz assim mesmo. e ser feliz por isso mesmo. e fim.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Vício Lírico

Vício Lírico

VICIADA
em chocolates
VICIADA
em estradas
em cores
em drama
em arte
VICIADA
em cheiros
em quebra-cabeças
em livros pela metade
em bons rotieros
em vontades...
VICIADA
em palavras
analgésicas
palavras histéricas...
QUEBRADA
VIRTUALMENTE INVADIDA
ESTUPRADA
VICIADA.