sábado, 16 de junho de 2012

A lição do otimismo

... é, pois é.
O resultado saiu e não ganhamos. Era um prêmio de teatro dado pela prefeitura (FATE), 600 mil para realizarmos um projeto do Caio Fernando Abreu. Fiquei triste, chorei um pouquinho, mas não fiz nenhum discurso de derrota.
Mas o mais importante de tudo, é que de certa forma isso me ensinou uma lição. Uma lição muito importante.
Assim que o resultado saiu prévio, dos classificados para defesa, eu estava incrédula. Não achava possível ganharmos. Como assim 600 mil? Como assim ? Não conheço ninguém, não bajulo ninguém, não tenho nada... quem sou eu no jogo do bicho? Mas depois... nessa espera interminável, e logo depois da defesa... comecei a achar que ganhar era uma possibilidade, e aceitei a vitória. Aceitei e fazia planos. Tinha quase certeza ontem, por exemplo que a gente ia ganhar.
Isso foi muito especial. Eu nunca acreditei, aliás, há muito tempo eu não acredito plenamente na vitória com medo do resultado ser uma decepção total e eu ficar MAL, muito mal. Mas a lição disso tudo, foi esta: não fiquei mal, muito mal. Foi incrível. E posso dizer que não esperava DERROTA. Esperava ganhar. Não esperava perder.
Não sei se é consciência limpa que fizemos o possível;
Não sei se de fato esperar o melhor e tentar fazer o melhor SEMPRE deixa essa sensação boa mesmo.
Preferiria acreditar na segunda hipótese. Assim, na próxima chance, VOU ser otimista de VERDADE, desde o início. Vou fazer uma programação mental e desejar - sem medo de cair, perder, me fuder.
Nada restou, só uma dívida de R$ 1.000 no banco e essa reflexão. Uma reflexão de que é melhor pensar positivo, que negativo. E ganhar, pode sim, fazer parte.

ANILIA

terça-feira, 5 de junho de 2012

DISCURSO DE DERROTA

São exatamente meia noite e chegando do trabalho me pego no elevador sozinha, ensaiando um nobre discurso de derrota. Não, Não, Não, Não, Não... mil vezes não. Não pode ser assim.

Estou tão acostumada a perder,  perder justamente, perder injustamente, perder com classe, com honra, com raiva... que acho estranho ganhar. Fico me perguntando se o pódium é mesmo meu lugar.

Estava falando assim, sozinha: "Pois é pessoal, não fiquem tristes porque perdemos, porque chegar até aqui, já foi uma vitória. Olhem pra trás, e vejam onde chegamos ..." - COMO ASSIM ??  - Devo apenas mencionar  para vocês leitores se situarem, que o resultado ainda não saiu  ! (risos) Como assim, ensaiar um discurso de derrota, se o resultado ainda não saiu ?... BEM... Não admito isso pra ninguém, afinal esse é meu pequeno segredo, meu segredo malígno, mas... confesso que sou uma pessimista. Estou abrindo minha alma, porque eu digo sempre pra todo mundo que sou OTIMISTA, mas secretamente, sempre ensaio meu discurso de derrota. Secretamente, sempre me justifico, sempre busco defeitos nas realizações, nas peças, nos projetos - arrumo defeitos, para não ter que admitir que talvez numa remota hipótese eu tenha que ganhar. Talvez,  numa remota hipótese,  eu seja imbatível. Eu seja vencedora.

É que pra quem inúmeras vezes perdeu, ganhar é tão... inédito. Desacostumei. Fiquei lembrando, ou tentando lembrar, quando não tinha disputa. Quando nesse mundo de teatro o "realizar" simplesmente já era vitória. Não tinha editais, não tinha festivais, não tinha testes. Só tinha o fazer. Era sem dúvida mais divertido, mais completo, com mais auto estima, mais dignidade. Porque diante de tanta competição e derrotas sucessivas, a auto estima de qualquer um vai parar no pé. Terrível, mas quem é do 'meio' sabe.

Eu comecei a duvidar da minha capacidade para fazer teatro, do meu talento, da minha vocação. Comecei a duvidar se gosto mesmo disso, ou se é mera vaidade. Mas daí... daí comecei a ver que na disputa, o "juri" nunca é totalmente isento, totalmente imparcial. Comecei a perceber que a vitória não ia para os melhores, mas para os mais populares, os conhecidos, os protegidos, os politicamente corretos. Mas a minha arte, o meu teatro não é, nunca foi e nunca será politicamente correto. Não sou popular, ao contrário. Não conheço ninguém,  e,  tirando a minha avó,  ninguém me protegeu até hoje - nem pai, nem mãe.

Saí do elevador pensando em escrever sobre isso no BLOG. Pensando que assim como eu, muita gente também ENSAIA DISCURSO DE DERROTA, sem sequer saber o resultado. O medo de ganhar, as vezes, é maior que o medo de perder. Ganhar é assumir responsabilidades, é ter que realizar, é conviver, aceitar, engolir alguns sapos e dragões. Ganhar é 'deixar de ganhar' em outros aspectos: não ter ninguém pra pôr a culpa, não ter que achar defeitos, e dependendo, pode ser  até 'deixar de evoluir', porque depois da vitória, não há mais degraus na escada para subir- já alcançamos a meta.

Mas eu me recuso HOJE (ou quase amanhã, pois passa da meia noite agora), a fazer esse discurso inútil. Inútil, porque dessa vez vou ganhar. Vamos ganhar. Todos. Merecemos, lutamos como nunca, brigamos e como em poucas vezes, trabalhamos unidos. Continuar unidos é consequencia, permanecer na vitória depende da nossa trajetória.

E, finalizando, sem parecer que este é o início de um discurso derrotista, queria apenas colocar, que, realmente, já  É vitória chegar até aqui, realmente. Independente de resultado,  somos vitoriosos.
Hoje com orgulho, falei assim para uma conhecida: "Vivo de teatro, exclusivamente de teatro. Dou aula de teatro, produzo, dirijo, escrevo, filmo, edito, ensaio, respiro... teatro, sou uma das poucas, que LITERALMENTE  vive da profissão." E vendo quantos e quantos amigos de teatro, cheios de talento que viraram... operadores de telemarketing, vendedores de loja, tosadores de pet shop, jornalistas, cerimonialistas de casamento, radialistas, professores de história, agentes de marketing, advogados e até polícia civil, é com um certo orgulho que posso dizer que pelo menos UMA vitória foi primordial nesta minha vida: continuar tentando e conseguindo, apesar de tantas derrotas,  até hoje, viver de arte.

ANILIA