Minha vó Chica teve 8 filhos e uma adotada. Todas as férias eu ia pra casa dela e ela fazia pra mim pão caseiro, que é uma coisa incrível para uma menina que mora na cidade.
Hoje fiz meu primeiro pão caseiro e lembrei muito dela. Na porta dos fundos da cozinha que dáva pra laje onde a gente passava as manhãs e tardes brincando e a vovó lavava roupa. Muito cedo o sol batia e eu ficava aquecendo os pés esperando a vovó bater o pão. Pensei de onde vinha essa tradição dela fazer o pão em casa. Devia ser por causa dos filhos, muitos, vovô pobre, e fazer o pão em casa devia sair bem mais barato naquele tempo. Pensei nos meus tios enquanto abria a massa. Todos. Tio Sissinho, que morava em Vitória, pai da Juliana, minha prima mais mimada, ele tinha uma cara muito braba. Tia Iara, que morava em Linhares, era mãe dos meus primos mais divertidos: Ismaelzinho, Renata e Aline. Aline era vesguinha e Isamaelzinho era uma peste, nossa. Era legal porque eles sempre traziam algo de bom pra comer. Tio Roberto, era todo posudo, lembro dele sempre com carrão, pulseira de ouro nos pulsos, óculos riban e carteira cheia. Dava sempre uns trocados pra gente comprar chicletes. Tio Túlio é meu padrinho e também era pai de uma tropa: pai da Érica ( a minha prima da minha idade, ou um pouco mais velha, por isso a minha favorita ), do Léo, que era uma gatinho e eu meio que paquerava e do Juninho adolescente mais endiabrado. Tinha também a Tia Maria, que era sempre muito animada e louquinha. Um dia eu lembro que ela fez uma vitamina para mim e pra Érica e colocou sal ao invés de açúcar... Tinha o Tio Henrique, que vivia no bar, e sempre comprava balas pra gente, me chamava de perereca. E tinha a Tia Isabel, sempre muito faladeira e engraçada, também era mãe das duas primas mais perto da minha idade : Isabela e Daniela, que brincavam muito com a gente. Tinha minha mãe que era a maluca, artista e destrambelhada da família e a tia Lu, que era a filha adotada da minha avó, que era uma adolescente quando eu era criança. Ela vivia me dizendo que ia de casar de "rosa chokim" e era fã da Aramação Ilimitada. Eu adorava a tia Lu. Aas vezes a vovó batia nela, porque ela aprontava muito.
Pensando nisso, coloquei o pão pra descansar. Ele acabou de assar agorinha e está muito bonito para minha primeira aventura. Acho que vou passar uma manteiguinha e comer com mate. Assim completa-se o ciclo de lembranças da casa da vovó Chica.
ANILIA