sexta-feira, 18 de setembro de 2009

trocas

De dentro do escritório, ele percebia a cidade lá fora, como num quadro vivo. Devia estar quente, de uma quenturinha boa. Não aquele ar condicionado gélido que não soava nada criativo e nada humano. Ele mexeu a pequena xicara de chá, provou. Seu café estava frio. Tudo degenerativamente frio. Lembrou de quando tinha 17 anos e ainda não tinha carteira, e fora parado numa blits. Os policiais de merda queriam extorqui-lo. Parece que quem é sempre pago prá nos proteger , nos explora ridiculamente. Aqueles policiais também eram frios... ah deixa prá lá.
Queria estar lá fora. Tirar aquela gravata que enforcava e meter os pés na areia fofa da praia. Voltar a pegar onda, tomar picolé dragão-chinês. Eram duros aqueles tempos : o picolé, era seu café da manhã e as vezes tinha que segurar no estômago aquele dragão até umas quatro e meia, que era a hora de filar um sanduba na casa da vó. Mas tinha saudades daquela época dura e desempregada. Daquela época que não tinha tempo prá nada, mas viva desocupado. Agora,a vida era um eterno entra e sai de trabalho que não findava nunca. Tinha almoço certo, hora do almoço com vale e tudo. Mas de que adiantava ? Não era nada daquilo que ele queria fazer.
Trocou sua liberdade por um serviço burocrático. Seu dragão chinês por um vale refeição de 14 reais. É certo que ainda faltavam 25 anos prá que ele se aposentasse, e em breve, se fosse um bom cidadão cumpridor de suas tarefas, em breve ia poder estar de novo lá . Lá onde ele olhava pela janela, e ambicionava uma cadeira ao lado da morena de canga amarela...
Sua vida virou mesmo moeda de troca : trocou relação aberta com a doida a Dandara, pelo noivado careta com a Luiza. Trocou a faculdade de música, pela de Administração. Trocou seus amigos de surf, pelos chatos gordos do escritório. Ele próprio tinha virado um gordo. Também com um vale refeição de 14 reais... Nada daquilo que mais sonhava conseguira realizar. E ficava só de raiva num escritório de frente prá praia. Onde mal podia ver direito o mar, com tantos relatórios em pilhas na sua frente...
Será mesmo que fez as trocas certas ? Impossível saber. Era também quase hora do almoço. E seu vale precisava ser gastado. Pensaria nisso depois.
by aniliah

sábado, 12 de setembro de 2009

vida de passarinho

Passarinho, passarinho, seguidor pequeninino, pousa aqui, pousa acolá.
Pousa de leve, num sapato velho, num banco de praça que não senta ninguém.
Passarinho pica aqui, acha uns pedaços, desfaz uns laços e cata cabelinhos para seu ninho.
Passarinho abre mão de tudo : abre mão das coisas que deseja, das paragens que sonha voar. Passarinho dessiste mesmo. Ele está muito infeliz com a vida chata que leva, essa vida de ter que ciscar todo dia, e de ter que voar sempre a favor do vento.
Passarinho só canta lamento.
Passarinho não sabe mais o que é viajar. Ele não sai desse campo, com medo de não voltar.
Um dia passarinho morre, e aí é que eu quero ver. Passarinho tão pequeno, nada fez, nada quis ser. Morrerá como pingo de chuva que cai lá do alto, e de tão escasso, não molha ninguém.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

relax

Eu quero mais é beber aquele guaraná sem gás que está na geladeira, colocar as minhas calças de pijamas largas e prender o cabelo no alto da cabeça sem penteá-los.
Quero um momento de relax, prá catar pulgas na minha gata, escrever para os amigos antigos, ou simplesmente ler aquele livro do Saramago que eu comprei há quatro meses e não passei da primeira página.
Quero um momento solitária pra curtir a TPM. Sem namorado, sem atores enchendo o saco, sem pensar em produzir todo dia.
Pegar minha caixa de lápis de cor, e colorir um desenho, arriscar uma pintura que está no esboço, não tomar uma neosaldina prá curtir a ressaca.
Vida de artista não tem relax. Não tem.
Temos momento certo prá sermos criativos, momento certo prá criação surgir. Não existe a palavra "não" ou "impossivel". Acha difícil ? Quem mandou querer encarar essa chuva colorida ?
Não posso me dar ao luxo há meses, digo, anos, de fazer duas refeições completas num dia. Nem aos domingos. Acho inclusive que perdi o hábito. Acho que jantar e almoçar no mesmo dia é exagero. Penso que se eu retornar a esse hábito antigo, poderei virar uma obesa. Já estou obesa.
Não tenho relax nem no sexo. Nem na hora de gozar. É foda.