Lua Crescente
Junto com a lua crescente, uma sensibilidade indecente avança sobre minha vida.
Confusa, choro. Olho cartas e poesias antigas, olho tudo que fiz com a minha vida e não me sinto ainda uma adulta. Tenho um ciúmes louco da minha avó que está longe, pensando como ela pode estar tào bem e feliz sem mim, como se eu ainda tivesse 12 anos. É uma droga que agora eu tenha 43 e ainda não consiga viver longe dela. E me preocupo tanto com toda a vida que ela deixa aqui pra traz, seus bichos, seus funcionários, sua casa e sua rotina que já era estruturada. Lembro nos tempos de aglomeração, de um carnaval bem atípico, que comecei namorando e terminei solteira. Quando eu ainda virava noites e dias nos blocos que atravessavam o centro e a zona sul. Uma lembrança, hoje, na lua crescente não me abandona: um dia que saí às 6:00, e com a mesma fantasia, sem almoçar, sem ir pra casa, tomando cerveja como se fosse água atravessei três blocos e fui parar na Lapa, com os pés bem sujos, de chinelas havaianas e guardando o dinheiro no sutien. Tinha marcado com um cara que eu estava paquerando há tempos, levei a prima à tira colo com medo desse encontro, já que a paquera era só virtual. Quando eu entrei no baile de carnaval, na Lapa, tava bem vazio - acho que só tinha a gente. Lamentavelmente, meu porre curou de pronto e eu senti como estava fedendo.
Na verdade eu estava fedendo muito, quase como uma mendiga . É bem vergonhoso escrever isso publicamente, mas também foi a primeira e única vez na vida que senti assim, meu cheiro, meu mal cheiro. E infelizmente o cara foi me encontrar. Não sei se ele sentiu meu cheiro, ou se fingiu que não sentiu. Como eu não podia fingir, só tentei disfarçar tomando mais uma cerveja - enganar o olfato, talvez. Ele quis me beijar assim mesmo. E ele não era feio não. Ficamos só no beijo, embora a gente tenha se pegado melhor num outro dia... mas de fato não quero contar hoje como esse caso acabou.
O que eu queria era dizer como choro muito nessas luas crescentes que vem a minha "COLEGA" e eu leio as poesias que escrevi pra minha filha.
Ela ainda é um bebê, mas um dia também vai pular carnaval de madrugada. Ela cheira tão bem, mas talvez um dia pode cheirar mal : de tanta cerveja, de tanto carnaval, e tanta rua, de tanto ... exagero.
Ela é mulher como eu. Tão maravilhoso isso. Sermos mulheres. E pensar que possamos ter vivencias semelhantes... e que eu posso reviver através dela. Por um lado sou grata ser mãe mais velha, remocei uns 20 anos com a maternidade, me sinto jovem e disposta para ser a parceira da minha filha até os 20 anos, sem sombra de dúvida. Muitos carnavais ainda, nós duas, quem sabe?
Essa lua crescente me faz ter essas idéias bem malucas e essas saudades repletas de estados bons. E fazer teatro é sem dúvida desenterrar defuntos e reabrir feridas... pois foi por causa dele, do teatro, do ensaio que abri o blog hoje, e fiz a primeira postagem de 2021 e reli dois textos antigos que me lembraram quem eu sou. Pois nessa vida tão doida, todo dia esqueço quem eu sou. Pra que eu vim pra esse mundo e porque eu tenho que acordar mesmo a amanha.
Só quero dizer que, foi muito bom ler textos antigos, fazer faxinas e reabrir agendas e diários antigos, me reconectar com uma Anilia que eu tinha esquecido que habitava em mim. E que nesse fim de semana eu disse pra minha amiga mais antiga, que já estamos com 40, mas me sinto com 18 anos, estreando a minha primeira peça como diretora e lendo um texto da agenda com as cortinas fechadas.
deixa eu ir, que a filha já acorda.
Sempre acorda nessa hora, e eu posso ter saudades disso daqui há 10 anos.
Com certeza , vou ter.
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