Conto Anti-Erótico
- Você tem que ler meu primeiro conto erótico! - ela ficava excitada toda vez que sugeria isso.
- Claro, eu quero, quero muito. Assim que tivermos um tempo...
Só que as duas nunca tinham. Naquelas curtas férias eram tantos bares pra ir, tantas esquinas pra virar, tantas bocas pra beijar, tanto banho de mar pra se tomar. E fazia um calor de 40 graus no Rio de Janeiro, as chinelas havaianas derretiam no tapete de asfalto que se estendia naqueles bairros próximos. Numa noite, numa fila interminável de banheiro, ela confessou à outra :
- Sabe, depois que depois publiquei meu conto erótico no blogger, muitas coisas aconteceram : recebi a proposta de fazer um curta metragem !
- Um curta :: ! - Excitou-se mais ainda a outra - é vou ter que ler mesmo este conto.
- E não é só isso, veja só o que eu recebi... - disse-lhe entregando o celular.
Era uma mensagem, de uma leitora do blogger. Nessa mensagem a leitora confessava sua excitação ao ler o conto erótico e a repentina paixonite aguda pela autora.
- Coisa louca esse negócio de escrever. As pessoas participam de sua vida, elas se envolvem de uma maneira que você nem imagina. Acham que você é íntima delas, quando você mal as conhece.
- É verdade, escrever é poderoso e te dá um poder extraordinário...
Evidentemente, quando leem o que você escreve . O que não açontece com muitos escritores de hoje, já que o culto à leitura torna-se um hábito cada dia mais raro e seletivo.
Então ambas ficaram ali, discutindo naquela noite de verão, sobre como a literatura mexia com as pessoas e como de certa forma ela mudava as nossas vidas...
Tudo poderia terminar por aí, se um dia mais por persistência que por insistência a outra foi de fato, ler o tal conto. Era bom.
Bom mesmo, lírico, de um lirismo jovem, da nossa geração. E a partir daí, essa outra ficou imaginando se também não podia escrever um conto erótico.
Mas era se expor demais, afinal, a amiga confessara que tal conto tinha sido inspirado numa situação real. Por isso ela estava com medo : ... poxa, para soar verdadeiro de repente, teria que viver algo semelhante. E a coragem : não tinha ! Não tinha coragem pra viver nada assim. E mesmo que tivesse , vá lá - contar isso prá todo mundo... era sinceramente ultrapassar seus limites. Sentia admiração pela coragem da amiga, inveja por não conseguir fazer algo semelhante...
Já estava se conformando, se nunca poder escrever um conto erótico. Mas num dia desses, dessas férias, nesse mesmo verão, fora à praia com a amiga. Com a amiga do conto-erótico.
Era cedo, e pegaram o ônibus pra Ipanema ainda vazio, embora fosse fim de semana. Saltaram próximo ao posto nove, ainda o point da praia. A caminho da praia se depararam com a vitrine de uma galeria de arte, que expunha inúmeros cartões postais franceses.
- Lindos ! Olha aquele da Torre Eifel...
- Fantástico o ângulo !
Estavam ali entretidas naquelas deslumbrantes fotografias, quando uma figura mais deslumbrante ainda abriu a porta da galeria deixando escapar uma lufada de vento frio do ar condicionado que escapava do interior da loja.
- Vocês podem entrar se quiserem... tem mais postais lá dentro...
Ele sim, era simplesmente LIN-DO !
Ambas amigas , entre boquiabertas e paralisadas foram se deixando entrar pelo interior da galeria de arte, embora estivessem de chinelas e com guarda-sol em punho...
E embora o rapaz se esforçasse em mostrar as belas fotografias dos cartões postais importados, nada fazia com que ambas as meninas tirassem os olhos daquele quase latino, quase europeu, quase um modelo, quase um deus grego.
Ele era alto de cabelos compridos e presos num rabo de cavalo, de olhos levemente puxados e uma boca convidativa. Foi inevitável imaginar um conto erótico com ELE.
Os postais não eram caros, mas as reações das amigas estavam lentas e dispersas. Não sabiam se elogiavam com elouquencia os cartões postais que se mostravam, ou se olhavam pro menino tão bonito e educado que atendia-as com uma atenção especial.
Poucos minutos juntos, mas foi descoberto coisas íntimas : ele era ator, ele se vestia muito bem, e sabia nome de vários fotógrafos famosos.
-“ Ah é o namorado ideal” – pensava a autora do conto erótico.
- “ Ah um conto erótico com esse muso...” – a amiga com pensamentos bem mais inescrupulosos.
Enfim, quase sem querer as meninas saíram. Não iam mesmo comprar os postais, mas pegaram o cartão com o nome do homem-perfeito... de fato não lembrariam esse nome mais tarde, mas a cena, a cena sim era inesquecível.
Ao caminharem pra praia foi inevitável o comentário de ambas:
- Nossa que maravilhoso ! Que homem é aquele !!
- Na hora imaginei escrever sobre ele...
- Um conto erótico...- suscitou a outra, mas logo balançou a cabeça - ... impossível ! Nada aconteceu, só se fosse totalmente fictício. O meu conto ao menos tinha uma base real.
- Se você não escrever, eu escrevo... – e rindo prá si mesma imaginou como seria seu primeiro conto anti-erótico.
E finalmente colocaram os pés nas areias quentes de Ipanema.
FIM
hehhehhehehheheh
ResponderExcluirBendita areia quente de Ipanema...rs